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sábado, 13 de março de 2010

Bela Vida Bela Morte

Onde reside a beleza de uma flor? Na própria flor ou na forma como a olhamos? Uma rosa somente é bela quando olhada de relance. Ao olharmos por muito tempo ela perde aos poucos seus atrativos. O que faz algo ser belo são suas características subliminares e não o que está explícito em sua aparência física. O que torna algo interessante é a maneira como olhamos para ele, de como nossa visão abrange seus atrativos.
Dessa mesma forma é a vida. Talvez seja por a olharmos tão superficialmente que muitas vezes nos cansamos de viver. Não é difícil encontrar pessoas que se sentem assim e que alegam não haver mais nada de interessante na vida que levam. Isso é fácil de entender.
Algumas pessoas se acostumaram a enxergar a vida de forma superficial, vendo nela apenas aquilo que ela privou-as de conquistar. Parece estranho, mas quanto mais tempo de vida tiver uma pessoa, menos atrativos verá em sua própria vida. Isso porque estamos acostumados a pensar que quantidade e tempo vivido são o mesmo que qualidade e tempo aproveitado. Os jovens vêm na vida um caminho não percorrido, cheio de possibilidades e risco em promessas, mas essa visão aos poucos se torna passado. Ao envelhecermos passamos a ver com mais clareza a dureza de nossas próprias vidas. Começamos a olhar mais para trás que para frente. Nossos idosos, na grande maioria, já perderam totalmente essa vontade de viver e se conformaram com a certeza do fim iminente de suas vidas. Sendo assim, se desapegam da vida e abraçam a morte como quem não tem outra opção se não essa. Esse pessimismo cruel que nos aflige decorre da nossa própria falta de vontade em enxergar com outros olhos a beleza de cada uma das fases de nossas vidas. Não poder mais subir escadas é a oportunidade de perder o medo de elevador. Não poder se abaixar até o chão é a chance de tentar alcançar algo mais alto. Não poder correr como antes é um sinal de que não adianta ter pressa... Devemos aprender a viver, entender e amar a vida independentemente de podermos ou não aproveitá-la como antes. A vida é feita de acordes, como uma canção, todos tocados sucessivamente, às vezes desafinados, às vezes não, mas que ao final compõem a sinfonia de nossa existência. A morte é o “toque final” do instrumento que usamos para executar essa obra, o nosso corpo. Isso não quer dizer que a canção morre quando esse instrumento para. Aqueles que conhecemos durante esse concerto darão continuidade aos acordes que tocamos ao se lembrarem do tempo em que ainda estávamos tocando. A isso chamo de memória. Mas também a memória vai depender de como quem se lembra enxerga a canção, se com um olhar desprendido ou com o olhar de que não enxerga mais a beleza de uma flor.

Continua... (quando minha visão mudar).

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