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sexta-feira, 26 de março de 2010

Converse

Em se tratando de desabafo, acredito não haver muita necessidade de se falar tanto sobre o que pensamos. Existe certo masoquismo que induz o ser humano à dialética das tristezas e nos força a desfiar nossas frustrações, opiniões e anseios a qualquer que seja o espectador.
Por que há tanta necessidade de compartilhar os nossos pormenores comuns se eles são exatamente isso, comuns a todos? Talvez seja por acharmos que alguém tem a solução dos nossos problemas. Talvez seja por acreditar que desabafando com alguém tudo se soluciona por si só. A verdade é que não sei o porquê disso, mas sei que costumo fazê-lo corriqueiramente.
Tantas vezes me abri com amigos e contei tudo o que sentia, buscando alguma ajuda nas palavras que, apesar de imprevisíveis, possivelmente seriam ditas (não me causando nenhuma surpresa) e me consolariam ou dariam rumo a minha indecisão. Não é o que se diz, mas sim como se diz. Não é o quanto se fala, mas o quanto se está disposto a ouvir. O sucesso de uma conversa depende de como você fala, de onde é a conversa, do tamanho da sua paciência e de com quem se fala. Existe uma “regra”, que não é bem uma regra, mas uma generalização de possibilidades previsíveis num diálogo, que permite ao locutor ser feliz ou infeliz naquilo que diz. Não gosto de generalizar (toda generalização é falha), mas sempre funciona se você não pensar tanto em agradar aquela pessoa com quem conversa naquele determinado momento. Muitas vezes as pessoas vão se aproximar de você dizendo: “Preciso muito conversar com você. Tenho alguns problemas e não sei mais o que fazer!”. É nessa hora que entra o seu discernimento e você decide se é o momento de ouvir ou de falar. Nem sempre um “Preciso conversar com você” quer dizer que você também tem que falar, basta ouvir, o silêncio às vezes é tudo o que as pessoas precisam ouvir para ficarem bem. É assim com você, comigo e até com aquela pessoa na qual você pensou agora. Ouvir é uma virtude, na minha opinião, maior do que o dizer. Conversas, monólogos, diálogos, papos, leros, troca de idéias, seja como for que você defina, a lógica é sempre a mesma: socializar. E socializar envolve indivíduos dispostos tanto a imposição quanto à submissão de idéias. Não há orador fixo entre amigos assim como não há interlocutor, ouvinte, espectador, platéia ou público que não se converta a outra posição durante o diálogo. Quem fala agora, ouve depois. Quem assiste uma conversa de fora pode participar da mesma conversa dentro de instantes. Por isso tudo não vejo lógica na seleção antinatural fecundada nas entranhas da sociedade antiga e arrastada até os dias atuais que diz que você tem que ver bem com que você está falando. Não acredito nisso. Não importa com quem você fala e sim o que você vai dizer. Não se deve ter medo de conhecer o mundo através dos olhos alheios. Isso só será possível se você conversar com os donos desses olhos. Contrariamente a isso você acaba tendo uma visão limitada da realidade e resume um universo inteiro ao seu umbigo. Fale bastante, fale sempre, converse, ouça, diga, se abra ou se resguarde, mas não seja tão egoísta ao ponto de acreditar que está certo de que não está errado (cabe aqui um vice-versa), que o legal é falar e os outros que te ouçam (outro vice-versa?) ou que sabe mais quem fala mais e que qualidade no assunto é sempre reflexo do alto status social e/ou intelectual de quem conversa. Nada disso é totalmente verdade. Seja flexível!

2 comentários:

  1. Putz matou o coment no começo

    " Em se tratando de desabafo, acredito não haver muita necessidade de se falar tanto sobre o que pensamos!..."

    Pôxa mas se tratando conectar assuntos difusos vc é um gênio, derrepente agente pega pérolas de várias áreas do conhecimento humano e outros conhecimentos mais metafísicos ainda desconhecidos...mto bom!

    Agha

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  2. Valeu!!!!!
    Não sabia essa das "pérolas do conhecimento"... Mas gostei disso!

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