Ontem, quando fui dar uma volta pela cidade, comecei a notar como as coisas mudam rapidamente. Sempre tive lembranças ligadas a lugares, a sons e a imagens em geral. Andei por algumas ruas que costumava frequentar na minha infância e notei que algo estava muito diferente. As casas mudaram. As árvores mudaram. Os cachorros e as pessoas mudaram. Até mesmo alguns números das casas mudaram.
Lembro-me de, quando eu tinha por volta de sete anos, minha mãe ter pintado (com batom) os números da casa onde morávamos. Até há pouco tempo os números que ela pintou estavam lá, intactos. Ontem me lembrei disso. Qual não foi a minha tristeza quando, propositalmente, resolvi passar diante daquela casa e dos números de batom. Os números que ela havia pintado não estavam mais ali. Reformaram grotescamente a casa. Pintaram os números de batom com tinta branca e, por cima, colocaram números baratos de metal. Provavelmente o atual dono da casa não poderia imaginar que ali, por trás daqueles números de batom havia toda uma história, várias lembranças e muito sentimento. Cada qual, com sua própria história, com suas próprias lembranças e seus próprios sentimentos, faz o que quer daquilo que possui.
Eu faço o que quero da minha vida e daquilo que tenho. Você faz o que quer com o que tens e ninguém pode decidir diferente por você. Mas, por trás daquilo que você modifica, destrói, refaz ou altera de qualquer maneira, existe o sentimento, a memória e o empenho de outrem em função daquele mesmo objeto. É bom ter cuidado antes de pensar que o mundo gira em torno do próprio umbigo. É bom saber que ações inconscientes podem também afetar diretamente a vida alheia. É bom saber e ter a certeza de que, nesse mundinho em que estamos, “é um por todos e todos por um”. Os seus sentimentos não são seus, assim com os meus não são meus. Eu sinto e, se sinto, sinto por alguém ou por alguma coisa. Sou eu que sinto, de fato, mas o sentimento é voltado para o externo a mim. Tudo bem, eu posso sentir por mim mesmo. Mas se sinto por mim, preciso de bases externas para fazê-lo. Como poderei dizer que me sinto bem, por exemplo, se não houver algo externo para me fazer sentir assim? Não é possível continuar achando que somos capazes de sentir sem haver a necessidade do outro. Aqueles números de batom faziam parte da minha história, eles eram meus. A pessoa que os apagou não me conhece, portanto não sabe disso. Mesmo assim, sem nem me conhecer, essa pessoa me fez sentir algo. Ela me fez sentir falta, vontade, ódio e muitas outras coisas. Mas ela não me conhece e não sabe disso. O apagar de três números, feitos com batom, insignificantes números de batom, pode ser um belo motivo pra pensar.
Agora imagine o que se pode fazer com a vida alheia com um simples mudar de planos na nossa própria vida. Imagine o que se pode fazer com os sentimentos alheios quando não sabemos lidar bem nem com os nossos. Pense em quantos números de batom você já deve ter apagado em sua vida e em quantas pessoas já sofreram caladas por isso. Reflita, enfim, sobre a possibilidade de haver um deus dentro de cada um de nós.
Somos “deuses” capazes de melhorar, ou piorar, a vida alheia. Também temos o poder de mexer com os sentimentos alheios sem, nem ao menos, ter consciência de que estamos fazendo isso. Temos o dom de escrever e reescrever as nossas histórias, trocar os personagens, o enredo e tudo aquilo que quisermos, quantas vezes quisermos, durante o tempo que nos é disposto até o fim das nossas vidas. Sendo assim, somos marionetes e também manipuladores uns dos outros. Somos cara e coroa, frente e verso, bem e mal, tudo e nada. Enfim, somos criaturas e criadores dos nossos próprios destinos, apagando e repintando números de batom nas vidas uns dos outros.
Pinte e repinte!
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu comentário: