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terça-feira, 23 de novembro de 2010

A noite do fim

Era uma noite fria...
Estávamos deitados em minha cama...
Ela, vestida com sua camisola cor-de-rosa...
Eu, acordado, admirando-a...

Como quem não quer nada, ela se aproximou de mim e disse, bem baixinho, no meu ouvido esquerdo:

-Eu te quero!

A noite entrava pela janela como um gatuno a espreita de sua presa.
A luz da lua penetrava sutilmente por entre a transparência de sua camisola.
Sua silueta se mostrava muito interessante...
Eu estava ali, observando...

Conversamos sobre nossas vidas durante alguns minutos...
Minha vida lhe era interessante...
A dela me chocava.

De repente ela salta sobre mim, dizendo que não poderia esperar...
Eu, ainda sem forças, pedi calma e segurei-a pela cintura...
Ela, olhando profundamente nos meus olhos, pediu:

-Desista!

Suor e escuridão se seguiram por horas...
Antes das três da manhã, ouvi a porta bater.
Olhei para o lado e...
Nada!

Continuei a dormir...

Pela manhã, recebo uma ligação (sem identificação) de uma mulher, dizendo:

- Eu te amo! Hoje sei disso.
- Mas não posso continuar...
- Eu não te mereço!
- Por favor, entenda, tenho que ir...

Desliguei o celular, pensei um pouco e fui tomar o meu café...

Aquilo não me parecia estranho. Normalmente seria daquela forma.
Enquanto tomava meu café, me veio um sentimento diferente...
Comecei a me sentir mal por perdê-la.

Terminei o café...

Resolvi voltar para o quarto, a fim de refletir melhor sobre aquela noite...
Ao sentar em minha cama, notei um papel amassado, jogado no chão...
Peguei-o e comecei a ler...

Dizia:

“Anjo,
Como posso começar?
Descobri que não tenho coragem de continuar com isso.
Sinto, sou fraca!
Essa foi a melhor noite de todas da minha vida.
Sinto-me amada...
Sinto-me alguém...
Mas vejo, também, que não posso te privar de ter alguém que realmente te mereça.
Sei o quanto você me ama...
Sei que faria (e fez) tudo para me conquistar.
Meu maior orgulho é saber que você me desejou durante todo esse tempo.
Por favor, Amor, não me leve a mal!
Sei que vou me arrepender de deixá-lo, mas não posso arriscar te fazer sofrer...

Com amor...”

Aquilo me deixou confuso...
Era, sem dúvida, a letra dela, mas não me pareciam ser suas aquelas palavras.
Não me conformei...
Guardei o bilhete e fui tomar um banho...

O tempo inteiro tentei abstrair-me daqueles pensamentos...
Quanto mais eu tentava esquecer, mais me vinham as lembranças...

Durante o banho, comecei a pensar nos possíveis motivos que a teriam feito tomar aquela atitude...

A água quente do chuveiro me tirava um pouco a dor da noite passada.
Lembrei de algumas coisas que havia dito a ela e comecei a notar certo nexo em tudo aquilo...

Certa vez, enquanto passeávamos pela cidade, ela começou a me questionar sobre meus sentimentos a seu respeito.
Tentei ser o mais sincero possível, o tempo todo.
Notei que ela não se dava por satisfeita, apesar de já saber o que eu sentia...
Perguntou se eu teria coragem de perdoá-la por alguns erros do seu passado.
Respondi que não me importava saber o que ela teria feito antes de me conhecer... Importava-me mais o que faria no presente...

Suas feições foram mudando e, mesmo ainda havendo aquele sorriso contido nos seus lábios, notei algo diferente em seus gestos a partir de então.
Nossas conversas foram tomando rumos estranhos...
Suas perguntas sugeriam ofensivamente sua vontade de encontrar uma saída (ou motivos para sair) daquela relação ainda fetal.
Minha inocência não me permitiu encarar essa realidade...
Continuei, como se nada estivesse acontecendo, a amá-la, cada dia mais.
Sua indiferença só era anulada pela minha persistência em procurá-la.
Isso era claro para mim.

Mas o tempo foi passando e tudo foi ficando pesado demais...

Os papéis, então, começaram a se inverter...
Eu, de amante incondicional, tornei-me indiferente à nossa realidade...
Ela, de indiferente, passou a necessitada de presença e atenção.

Essa inversão gerou uma nova fase na nossa triste – mas persistente – relação...

De repente, a água do chuveiro gelou todo o meu corpo...
Senti um arrepio na coluna...

Algo me ocorreu:

- Ela se foi porque eu não a fiz feliz!

Foi como se eu tivesse caído de um precipício direto num poço de culpa.
Aquele sentimento tomou conta de mim e me fez tomar uma atitude...
Ir procurá-la...

Ao sair do banheiro, resolvi que iria tentar ligar antes.
Procurei o número que ela havia me passado e, ainda me vestindo, liguei...

-Caixa postal...
-Caixa postal...
-Caixa postal...

Foram várias as minhas tentativas.
Todas em vão.
Comecei a me desesperar...

- Como assim? Por que ela está agindo dessa maneira?

Dúvidas e mais dúvidas foram surgindo em minha mente.
Passei a me preocupar, ao mesmo tempo, em ignorar tudo aquilo e correr atrás da minha amada.

Entrei em parafuso...

Não seria fácil encontrá-la naqueles dias. Ela morava fora e, com certeza, voltara para casa naquela manhã...

Não sabia o que fazer...

Optei por tentar me convencer de que não adiantaria ir atrás.
Resolvi ficar em casa e deixar que tudo se dissolvesse com o passar das horas, dos dias e das semanas...

O tempo parecia não passar...
Cada segundo se tornou uma eternidade....
Passei a assistir ao visor do meu celular como se fosse um daqueles sucessos inéditos de bilheteria...
Exatamente, é um paradoxo.
Esperava insistentemente uma ligação dela...

Minha geladeira, antes cheia, agora estava vazia...

Minha sala de estar passou a ser depósito de latas e garrafas de bebida (vazias)...

Minha vida foi se esvaindo, escorrendo por entre os dedos daquela garota.

Não tinha forças para ir trabalhar, para comer ou para me levantar da poltrona.

Minhas forças, as poucas que me restaram, foram direcionadas ao pensamento fixo de que eu não precisava daquela traidora.

Os dias passaram...

Como de costume, ainda arriscava ligações noturnas para o celular dela...

Como de costume, ela não atendia minhas ligações...

Aquilo foi fugindo do meu controle...
Estava obcecado por resolver tudo, de uma vez por todas.
Tinha me perdido, perdido o foco dos meus objetivos e da minha vida.

Na manhã seguinte, ouço tocar a campainha...

Como ninguém me visitara há um bom tempo, fiquei assustado com a situação.

Gritei para que esperassem por um momento, enquanto tentava me recompor, ao mesmo tempo em que escondia a sujeira da sala de estar...
Fiz o que pude, nos dois minutos que tive, com os entulhos que havia deixado pela sala.

Finalmente, fui atender a porta...

Olhei pela janela, para tentar antever quem estava ali.
Notei uma figura masculina, mas não pude reconhecer.
Resolvi abrir a porta logo, de uma vez...

- Olá!

Disse...

-Faz tempo que não o vejo, então resolvi vir ver se estava tudo bem!

Era um amigo, de longa data, se mostrando preocupado comigo, vindo me visitar.
Hesitei em convidá-lo a entrar, mas não tive tempo de contê-lo em sua espontaneidade ao me retirar do caminho e ir adentrando em minha casa.
Não chegou a comentar, mas percebi que ele notou minha triste situação física.
Há semanas não me barbeava. Meus banhos eram como os de gatos e não duravam mais que 4 minutos.
Não estava bem, de fato.

Ele se sentou no sofá e começou um interrogatório que se estenderia pelas próximas três horas...
Conversamos sobre o ocorrido, sobre minha decepção e sobre aquela situação toda, na qual me encontrara...

Certo momento, ao notar meu profundo descontentamento, ele me disse:

- Oras! Mas, justo você, um cara que sempre teve a garota que quis, sofrendo por causa de uma única? Não vejo sentido nisso, meu amigo. Me parece, de verdade, que você optou por sofrer simplesmente por gostar de complicar a sua própria vida! Não há sentido algum! Não te reconheço!

Senti que ele estava certo, em partes, mas não quis prolongar o sermão.
Calei-me e deixei-o continuar...

- Olha, não é justo que, em meio a tanta indisposição, você deixe morrer aquele que, no fundo, é o meu bom e velho amigo! Lembro-me de você, muitas e muitas vezes, me aconselhar dizendo que não valia a pena sofrer por alguém que me deixasse, independente dos motivos que essa pessoa tivesse... Pois bem, venho lhe retribuir o conselho, dizendo-lhe as mesmas palavras com as quais você me salvou daquela fossa: Caia na real, meu amigo! Só um idiota para sucumbir diante de tanta falta de nexo!

Essas palavras ecoariam em minha cabeça por muito tempo...

Nossa conversa foi longa, mas, devido ao estado em que me encontrava, não me lembro de muito mais que isso...

Lembro-me de que, antes de sair, ele me abraçou, me deu um tapa sutil no rosto e disse:

- Não me faça ter que resgatar você do fundo do poço!
-Muito menos, carregar sua urna até o seu fim definitivo!

Saiu, enfim, despedindo-se com um singelo “até breve”.

Aquela conversa me fez ter vontade de superar aquela situação...
Resolvi organizar minha casa, minhas coisas, minha vida.
Coloquei tudo em seu devido lugar...

Durante o decorrer daquele dia, pensei muito sobre as palavras que ele me disse e comecei a notar a minha falta de amor próprio.
Aquilo não estava certo!

Fui para o banheiro, a fim de me recompor...
Tirei minha roupa e entrei na banheira...

Naquele dia, meu banho durou algumas horas e me rendeu grandes reflexões...

Cheguei à conclusão de que aquilo não era amor. Sempre soube que o amor não possuía (ou, pelo menos, não deveria possuir) o dom de machucar alguém...
Estava mesmo era confuso, obsessivo, talvez até com síndrome do abandono....
Mas duvidei que fosse amor...

Ao sair do banho, peguei minhas roupas e fui para a lavanderia...
Revistando meus bolsos, reencontrei aquele bilhete...
Naquele momento, não tive coragem de descartá-lo...
Guardei-o, mais uma vez.

Os dias seguintes foram tomados por um lento e gradual processo de reafirmação.
Tudo estava voltando aos eixos.
Minha vida se endireitava novamente.
Procurei não pensar mais naquela garota...
Fui atrás dos meus amigos...
Comecei a sair com eles nos finais de semana...
Conheci outras garotas, voltei a trabalhar e reaprendi a tocar violão.
Minha vida nunca pareceu tão boa...

Naquela noite, enquanto me preparava para ir para a cama, resolvi reler aquele bilhete, com o objetivo de destruí-lo finalmente.
Desta vez, pensei muito antes de me arriscar a cair novamente naquelas palavras cortantes...
Estava preparado.
Reli...

Engraçado como aquilo me parecia diferente desta vez...
As palavras fluíram de forma leve naquela releitura.
Ainda havia sentimentos em mim em relação a ela, mas, desta vez, enxerguei a verdade por trás da beleza de suas palavras...

Notei que não havia motivo algum para que ela me deixasse, a não ser a sua própria indecisão. Interpretei, enfim, aquele bilhete, como uma forma infantil de se dizer que não sabe o que quer, que não é culpa minha, mas que não quer ser culpada também.
Ela realmente não teve coragem de continuar com nossa relação...
Foi fraca e, de fato, fugiu.

Por outro lado, eu, que me achava forte e capaz de possuir e conquistar o mundo, sucumbi a um simples bilhete, descartando todas as minhas conquistas em função de uma única perda.
Percebi também, ao saber que ela não queria me fazer sofrer, que ela já sabia que eu poderia fazê-la sofrer no futuro. Que mesmo ela me amando e sendo amada por mim, já conhecia essa minha tendência a desistências futuras.
Tudo isso ficou claro para mim.
Essa certeza não me veio ao acaso.
Eu sabia e estava consciente da minha autodestruição naqueles dias...
Superei a tempo, graças a capacidade de ver o mundo com outros olhos sempre que necessário.

Amigos, garotas, família...
Todas essas coisas sempre me foram essenciais, mas não deveria (nunca) ter pensado que seria para sempre...
Ao terminar de reler o bilhete, queimei-o e o joguei na lareira...

Admirei aquela chama alaranjada por alguns instantes...
Senti arder o amor e se desfazer em chamas...
Vi o vento espalhar as cinzas desse sentimento pelo ar, consumindo-o, enfim...

Subi as escadas em direção ao meu quarto...
Abri a porta e ali estava, com sua camisola cor-de-rosa, deitada, me esperando...

O meu amor.

Do lado da cama, no pequeno berço, dormia tranquilamente o meu maior tesouro...

O meu amor.

Ali, na porta, observando, estava ele, aquele que havia passado boa parte da vida olhando para o lado errado do seu próprio coração...

O Amor.

Deitei-me e, enfim, ela se aproximou de mim e disse, bem baixinho, no meu ouvido esquerdo: “Eu te quero” ...

FIM

Atenção: Esta é uma história fictícia, com personagens e enredo fictícios. Qualquer semelhança com a (sua) realidade será considerada motivo para releitura!

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