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terça-feira, 29 de março de 2011

Discurso aos 26

Há exatamente um ano, escrevi aquele que viria a ser o discurso dos meus vinte e cinco anos e postei aqui, terminando como um tipo de texto reflexivo. Muita coisa mudou desde então. Exatamente hoje estou completando 26 anos. Como a própria cronologia deste blog deixa claro, já que todos os textos são postados e datados em sequência, muita coisa aconteceu neste intervalo de exatos 365 dias. Idas, vindas, perdas e conquistas...
O mundo girou em torno do seu próprio eixo e em torno do sol, voltando quase que exatamente ao mesmo ponto onde estava há um ano. Mas a verdade é que não estamos no mesmo ponto em que estávamos. Coisas irreversíveis aconteceram. Coisas inevitáveis e inimagináveis também. Um ano após e tudo está diferente. Ciclos desfeitos, ciclos novos iniciados, novas flores num jardim outrora abandonado e o abandono total de um jardim que por muito tempo foi zelado. Mudamos todos e nos tornamos um ano mais sábios. Chegamos ao ápice do nosso percurso vital até agora. Deixamos para trás muitas incertezas, muitas frustrações e muitas dúvidas. Estamos, sem dúvida, mais aptos ao acerto, já que sabemos um pouco mais sobre a vida e sobre como vivê-la. Enfim, evoluímos e aprendemos.
Essa mesma história, porém, tem um outro lado (como tudo na vida). Obviamente o mundo girou. Mas nem todos nós saímos do ponto onde estávamos há exatos 525.600 minutos. Muitos de nós paramos no tempo e ficamos remoendo os mesmos problemas, nos fartando com as mesmas conquistas de sempre. Estagnamos, como se fossemos relógios velhos e incrustados de ferrugem. Tem gente por aí vivendo a mesma vida de quem, há um ano, sabia exatamente o que era melhor para si. Tudo bem, há um ano eu concordaria com essa pessoa. Mas devemos impreterivelmente mudar. Devemos evoluir para algo mais consistente, mais complexo e específico. Devemos evoluir, de Neandertais que fomos para Homo Sapiens que somos ou, pelo menos, deveríamos ser. Mudanças são inevitáveis e, claro, todos mudamos. Porém, me aflige saber que nem todos aceitem que mudanças podem representar algo bom. Me aflige ainda mais saber que tem gente que prefere estacionar no meio fio da vida do que mudar de faixa diante de uma adversidade qualquer (metáforas são inevitáveis). Vejo gente insistindo sempre nas mesmas coisas, nas mesmas pessoas, nos mesmos caminhos (e nesse caso poderíamos descartar o plural), acreditando friamente que não adiantaria rever ou mudar os planos. Gosto da idéia de que qualquer rotina seja opcional, sendo, portanto, evitável e modificável. Rotina não deveria ser considerada algo bom. Ela nos limita aos mesmos objetivos e conquistas, dia após dia. Tudo bem que possamos conviver tranquilamente com uma rotina sem haver a necessidade de novas opções ou conquistas. Mas quão melhor seria se tivéssemos uma nova rotina pra cada dia de nossas vidas? Acredito que viveríamos bem melhor e estaríamos muito mais completos como seres desafiadores que somos.
Pois bem. Um ano se passou e a pergunta que me atrevo a fazer é: Quem de vocês realmente obteve uma conquista que represente sentido de orgulho e completude para si mesmo? Ou então: Quem aqui realmente evoluiu em relação ao que fora há um ano, ou 365 dias, ou 525.600 minutos ou 31.536.000 segundos? Considerando o fato de que até mesmo o “aprender” a coçar o ouvido, para quem nunca o fizera antes, represente uma evolução, melhor seria se eu perguntasse: Desse tempo todo, quem aqui aproveitou mais ou se considera realmente melhor do que foi há um ano? Oras, basta olharmos para nossas próprias vidas e veremos o quanto necessitamos de melhorias, internas e externas. Mesmo sabendo que nunca nos daremos por satisfeitos (mesmo que evoluíssemos em um ano, o equivalente a uma era) é bom saber que tudo é muito relativo. Sei que tudo isso pode não valer nada e nem possuir cunho científico para você. Mas também é fato que, a partir da conquista de novos conhecimentos (sejam de quais tipos forem), a tendência natural do ser humano é o desdém pela fonte que o originou, que reuniu ou transmitiu as informações. Assimilamos os conteúdos, seguindo-se a isso a ilusão de posse dos mesmos e o repúdio da possibilidade (por mais que ínfima) de haver a necessidade de continuar evoluindo, revisitando as fontes e redescobrindo o mundo e nossas próprias vidas. É nessa hora que estagnamos e passamos a nos considerar invioláveis, possuidores e donos da razão e lógica universais. O mundo gira novamente, passa-se mais um ano, e cá estaremos de novo, exatamente onde estávamos. A menos que estejamos dispostos a girar com o mundo, zelar por flores novas naquele mesmo jardim (e por flores velhas em novos jardins também), mudar e modificar rotinas, nunca sairemos do lugar.

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