Quando os erros cometidos se tornam muitos, talvez seja o momento de refletir. Erros são capazes de destruir conquistas e também de privar-nos de conquistar. Eles podem nos perseguir, podem se apossar de nossas ações. Erros demais podem nos afastar das outras pessoas. Eles podem se tornar um vício indesejado e persistente, nos acompanhando por toda a vida. Mas, mesmo assim, errar é humano e às vezes as coisas são difíceis de acertar mesmo. Os erros podem se tornar coisas boas se soubermos o porquê deles existirem. Ainda que muitos neguem seus próprios erros, de fato todos erram. Erros são situações sempre iminentes e podem ser bastante construtivos, já que se repetem incessantemente.
Falo de erros, mas mais especificamente do erro em ignorar as repetições. É como quando acreditamos que nunca mais vamos fazer certas coisas, mesmo sabendo que sempre poderemos repeti-las (e o faremos algum dia). É um erro acreditar que algo só possa acontecer uma vez na vida ou que nunca mais seremos idiotas o bastante para cairmos num mesmo buraco. Talvez acreditemos nisso devido ao nosso raciocínio demasiado limitado. Por outro lado, basta observarmos a incrível sequência de repetições que o universo nos impõe para desacreditarmos da idéia de que não estamos sujeitos a isso também: O sol nascente e poente todos os dias, dia após dia. O eterno entrar e sair. O ir e vir. O nascer e o morrer de tudo o que vive e morre (nesse caso você deve estar pensando assim: Mas nós nascemos e morremos uma só vez durante a vida! Pode até ser. Mas ninguém pode provar isso, por enquanto. Talvez seja mesmo uma só vez, mas talvez não). Enfim, são diversas as repetições e também os erros. Isso é fato. Mas porque diabos pensamos que com a gente isso é diferente? Pois é, eu pensava assim. Mas infelizmente descobri que isso foi um grande erro. Tenho notado uma incrível repetição de situações em minha própria vida e na de quem está ao meu redor. As situações se repetem de tal forma que tenho vivido num crônico déjà vu onde as pessoas são outras, mas os assuntos, as piadas, os gestos, os cheiros, tudo é a mesma coisa. Isso deveria me servir de exemplo para que eu não errasse tanto como antes, mas na verdade acabo cometendo sempre os mesmos erros e todas as situações em que me encontro. Notei então que a vida é bastante sutil no quesito enganar aos que vivem e os que pensam que sabem pensar. Por algum tempo acreditei que minha existência se autoreciclava, que tudo se renovava e tudo que era velho viria a ser novo um dia. Mas isso também foi um erro, um erro causado pela sutileza da minha própria existência. O ser humano é muito limitado, portanto, o máximo que podemos (e conseguimos) fazer é repetir as mesmas situações em outros ambientes, com outras pessoas, mas sempre num processo circular e cheio de falhas, partindo do início para o final e daí para o início novamente, cometendo ora um, ora outro erro mais uma vez. É como quando rimos das mesmas piadas só porque estavam sendo contadas por uma pessoa diferente daquela que outrora a contou. Todo o mundo sabe que é um erro rir de algo que não tem mais graça, mas na maioria das vezes rimos. É disso que estou falando, da apatia absoluta ao amor mais sincero, tudo não passa de repetição de erros e de acertos em função da nossa melhor sociabilidade.
Depois de descobrir essa possibilidade, aprendi que o que torna uma situação especial é apenas a maneira como a enxergamos. Aquela mesma pessoa desinteressante, que deixamos de lado em algum momento da nossa vida, pode voltar a ser interessante caso isso nos convenha. Até mesmo aquele objeto inútil pode voltar a ter utilidade mais tarde, caso queiramos. Aquela piada batida pode ser a mais engraçada da noite se assim quisermos. Aquele erro absurdo que juramos nunca mais cometer pode se fazer necessário novamente caso precisemos reaprender a acertar. De fato tudo se repete, mas isso não quer dizer que isso seja errado. Apenas nos prova que somos limitados em nossas atitudes e criatividade. As opções sempre são as mais diversas possíveis e é com a diversidade delas que nos confundimos mais. Não se pode ter medo de errar. É bom aceitar isso para que possamos nos preparar para recomeçar. Vamos ouvir aquela mesma piada mais uma vez e rir como nunca! Afinal, é muito engraçado saber que ainda vamos ouvi-la diversas vazes até o fim da nossa vida e ela ainda poderá ter muita graça, dependendo de quem contá-la. Podemos rir de novo, ou não, mas a questão é saber se é o erro uma parte da graça ou se a graça está em admitir o erro como parte de nós. Na dúvida, repita tudo até aprender, mas sempre sem se esquecer de que tudo não passa de uma questão de ponto de vista.Cabe a quem erra saber onde errou e o porquê de continuar errando, mas isso não vai o impedi-lo de errar novamente e outra vez e de novo até o fim da sua vida. Isso só vai ajudá-lo a aceitar-se a si mesmo como humano que é e a aprender que errar e parte da sua natureza como tal.
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