Eu tinha acabado de sair da casa de uns amigos quando recebi uma ligação. Era meu pai me dizendo que minha mãe havia passado mal na noite anterior e que ele a estava levando para o hospital naquela manhã.
Estávamos em cidades diferentes, há quilômetros de distância. Não os via havia quatro dias e eu nunca poderia imaginar aquela situação. Perguntei o que tinha acontecido e ele disse que era o de sempre, que ela se queixou de muita dor na cabeça e que estava parcialmente inconsciente naquela hora. Alertei-o então para que procurasse auxílio médico o quanto antes. Algum tempo depois ele me ligou do hospital.
Minha mãe sempre foi uma pessoa muito alegre, cheia de vida e, apesar de muito nervosa, sempre foi capaz de abrir os mais belos sorrisos. De família humilde, filha de fazendeiro, cresceu na fazenda dos pais, juntamente com seus irmãos e irmãs. Nunca lhe faltou nada. Era feliz e muito apegada as coisas do mato (como eu sempre dizia a ela). Adorava ver as galinhas no quintal, as vacas no pasto, os patos na água e o céu azul da fazenda. Já com 21 anos, ainda na fazenda, engravidou do seu primeiro filho, fruto de um caso adolescente que nunca viria a ser conjugal. O ano era 1985. Nascia este que vos fala. Pouco antes do meu nascimento minha mãe optou por nunca mais ver o meu pai. Assim foi por muitos anos. Agora, com um filho, minha mãe descobriu um outro lado da vida. Viu, dentre aqueles que a cercavam, quem estava disposto a apoiá-la e quem não estava. Muitos não estavam. Vagou por algum tempo, passando as noites na casa de alguns conhecidos e amigos e reconstruiu seu círculo. “Foram dias difíceis” ela dizia. Dois anos depois veio o segundo filho e mais tarde vieram os outros. Nada parecia abalar aquela que viria a se tornar o meu maior exemplo de força e de perseverança. Dias de sol e dias de chuva vieram no decorrer dos anos que se seguiram. Ela estava sempre ali, firme como sempre. Nada a desanimava. Não havia tristeza que resistisse aos seus comentários e observações inflamados e otimistas. Fazia muitos planos. Teria que viver muito se quisesse realizá-los. Foi um exemplo.
Antes de receber aquela ligação, eu estava em uma lanchonete, tomando meu café da manhã. Naquele dia algo estava errado, mas eu não sabia o que era. Fiquei alguns minutos olhando para o nada enquanto pensamentos vagos passeavam por minha mente. Alguém me cumprimentou ao passar em minha frente e eu respondi por impulso. Nada era real. Tudo parecia um sonho, como se eu estivesse bêbado e não sentisse mais o chão. Mas eu ainda não sabia. O meu celular tocou e tudo fez sentido. Começava ali uma história que se estenderia pelos próximos 35 dias. Teve início um inferno florido, com toques de branco e cheiro de éter.
Agulhas, seringas, macas, aparelhos por toda parte. Nenhum sorriso. Seus olhos fechados e sua boca aberta como se estivesse exausta depois de um dia longo de trabalho. Dormia. Naquele quarto pequeno, espremida pelas proteções laterais da cama, ligada a todos aqueles aparelhos que não faziam sentido algum. Linhas verdes, amarelas e vermelhas traçando gráficos desconexos naquela tela plana e pequena. Um coração que batia, ainda que sutilmente, num peito angustiado de uma mulher. Uma mulher forte, mas fragilizada pela vida.
Alguns dias depois ela estava consciente. Conversamos pouco, mas sentimos tudo. Sorrimos outra vez. Ela estava de volta. Os dias foram passando e seu estado foi nos parecendo otimista. Os médicos diziam: “o risco é menor que 1%”. Estava tudo bem. Seguiram-se com os exames, tomografias, encefalogramas, injeções, medicamentos. Fizera até uma viagem para outra cidade para que concluíssem os exames que faltavam. Foi bem e voltou bem. Não ficou mais na UTI, fora para um quarto comum na ala clínica. Agora as visitas entravam e saíam. Era o quarto mais alegre daquele hospital. Chamava os enfermeiros e médicos de “colírios”, pois dizia que eram, na maioria, muito bonitos. Era uma diversão só. Passei horas, por vários dias ali, com ela. Lemos a Super Interessante, descobrimos que os cachorros são burros porque descendem dos lobos, mas não tem cérebro tão grande quanto o deles. Ouvimos Engenheiros do Hawaii (ela adorava) e almoçamos juntos aquela refeição sem sal. Estava tudo muito bem.
No domingo, fui vê-la pela manhã. Cheguei, entrei e fui acordá-la. Eu disse “oi mãe, cheguei tá”, ela respondeu com um sorriso dizendo: “ué, chegou cedo hoje”. Sentei-me naquela cadeira reclinável horrível, como de costume, e começamos a conversar pausadamente até a hora do almoço. Antes, ela se levantou, tomou banho, pediu para que eu passasse óleo de girassol em suas pernas (que estavam ressecadas e feias, segundo ela), emprestei-lhe o meu perfume (que ela adorou), ela se deitou novamente e ali ficamos até as 13h. Reclamamos das revistas que estavam no quarto (as mesmas há uma semana), fui trocar por outras, lemos e deixamos para comentar outro dia. Chegou a hora de sair. Eu tinha que ir, pois meu pai viria a tarde. Não tinha como nós dois ficarmos (normas do hospital). Despedi-me com um beijo em sua testa dizendo que era prela melhorar logo. Ela disse: “logo eu saio daqui”. Eu disse: “é o que eu espero” e saí. Lapso: ao chegar ao corredor do hospital, lembrei-me que havia deixado no quarto os meus óculos escuros. Voltei correndo para pegá-los e ao entrar no quarto ela me viu e perguntou ironicamente: “esqueceu seus óculos né?”. Eu olhei pra ela, meio sem jeito, e disse que sim. Ela riu e comentou: “você não precisa de óculos, precisa de uma memória melhor”. Sorrimos juntos olhando um para o outro e então eu saí de vez.
Naquele mesmo dia, por volta das 20h, meu pai me liga mais uma vez e diz: “sua mãe passou mal e voltou pra UTI”. A essas alturas eu já não estava entendendo mais nada. Ela estava bem havia pouco tempo. Como assim? Nos tranquilizamos por saber que ela já tinha passado por isso e voltado. Ficamos firmes. Foi-se o domingo. Na segunda-feira ela seria operada. Iniciaram o processo de preparação da paciente, mas ela entrou em choque, seguido de coma profundo não induzido. As notícias foram chegando e não eram nada animadoras. A fé continuava. Foi-se a segunda. Terça-feira. O quadro era estável. O coma era estável. Os médicos diziam que não havia nada a ser feito. Rezar era a única esperança. Rezamos. Foi-se a terça. Quarta-feira. As esperanças se esvaiam a cada boletim emitido pelos médicos. Estávamos todos sendo sustentados por nossas fés, pura e simplesmente. O quadro era o mesmo, ela não teve reações. Algumas tias vieram visitá-la. Saíram chorando e pedindo um milagre. Foi-se a quarta. Durante a madrugada, por volta das três horas, eu acordei sem motivo aparente e me sentei na cama. Fiquei ali por mais ou menos uma hora, pensando e rezando.Voltei a dormir algum tempo depois,ainda sem saber o motivo da insônia repentina. Quinta-feira, 23 de setembro de 2010, 09h30min da manhã. Uma ligação feita do hospital para o meu celular. A voz me diz: “solicitamos a presença urgente dos familiares”. Pronto. Avisei meu pai e lá fomos nós. Tragédia anunciada. É assim que eu chamo.
O ultimo boletim médico afirmava que ela tivera complicações durante a madrugada e falecera durante a manhã daquele mesmo dia. Booooooommmm! Foi-se o meu chão. Mas não chorei. Estava calmo como ela sempre me pediu para estar. Tive paz. Ela teve paz. Ela se foi. Foi antes do planejado. Antes do que havíamos combinado. Mas eu entendo. Não há o que se fazer. Não mais. Oras, afinal os riscos eram menores que 1%. Era de se esperar não é? Eles não mentiriam pra mim. A matemática da vida é que está errada. Foi um milagre mesmo, não há dúvidas. Melhor agora onde ela está. Não é mesmo?
Fim
Que dom mas lindo!!Que Deus continue ti iluminando!!! Suas palavras mexem com nosso interior,apesar de ser um relato da vida que acaba trazendo uma tristezas sem explicaçao... E um desabafo emocionante....
ResponderExcluirfoi uma mulher
ResponderExcluirque amava a familia
e que sempre vai fazer parte de nossas vidas
pessoa boas parte cedo
pq são especias
é sua mãe tbem o era
Neste momento Krys só posso te dizer que ti amo muito como sempre amei,e vou continuar te amando como parte da minha tia amada que se foi e me deixou mas deixou você pra mim amar como eu a amava,ainda sofro muito com a ida dela e não posso mentir pra você dizendo que me conformei porque isso ainda não aconteceu,mas sei que ela esta bem ao lado de Deus.te adoro.Beijos
ResponderExcluirMuito lindo o que vc escreveu...mas saiba que ela sempre estará olhando por você e seus irmãos...e por todos.
ResponderExcluirRealmente sua mãe era uma pessoa muito feliz...que não deixava se abalar...apesar de muito nervosa, era humana e sempre pronta para ajudar...lembro-me bem de toda a sua passagem desde os tempos de solteira, de como era linda, depois a sua chegada e enfim toda a história que vc sabe...mas o bom é que também aprendemos com ela...com certeza ela vai nos fazer muita falta....
Assim como minha irmã disse ainda bem que ela nos deu vc e como ela também nos orgulhamos muito e esperamos que seja muito feliz!!!